06/07/2026

Aurélio Perez e Laerte serão homenageados no Dia da Luta Operária

Por Catarina Martines

A celebração do Dia da Luta Operária no Brasil é, anualmente, acompanhada por um tributo feito a pessoas que tiveram sua trajetória marcada pelo apoio à luta dos trabalhadores. Em 2026 serão homenageados a cartunista Laerte Coutinho e o ex-deputado Aurélio Peres.

A cerimônia deste ano será na sede do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados (SindPD), na avenida Angélica, 35, no bairro de Santa Cecília em São Paulo. Desde sua primeira edição, a cerimônia de entrega ocorre todo ano na sede de algum sindicato de São Paulo. As duas últimas edições aconteceram na sede da Central das Trabalhadoras e dos Trabalhadores do Brasil (CTB) e na do Sindicato dos Padeiros de São Paulo.

Aurélio Perez

Aurélio Perez foi um um operário e político brasileiro que dedicou sua trajetória à organização dos trabalhadores, à luta contra a ditadura militar e à defesa dos movimentos populares e sindicais. Integrado ao clandestino Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ele se candidatou a deputado federal pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e, em 1978, sem nenhuma experiência parlamentar, elegeu-se para a Câmara com um desempenho eleitoral expressivo.

Ele foi uma das principais lideranças do Movimento contra o Custo de Vida, mais tarde conhecido como Movimento da Carestia, iniciativa que mobilizou trabalhadores, donas de casa, estudantes e intelectuais em torno da reivindicação por melhores condições de vida e pelo controle dos preços dos alimentos. Tendo como principal instrumento um abaixo-assinado que reuniu mais de 1,3 milhão de assinaturas, o movimento se tornou uma das mais importantes mobilizações populares do período final da ditadura militar brasileira.

Laerte

Laerte Coutinho é uma das cartunistas e chargistas mais importantes do Brasil, reconhecida por sua genialidade e olhar crítico sobre a sociedade. Nascida em São Paulo em 1951, estudou na ECA -USP e iniciou sua carreira nos anos 1970. Nesse período de forte efervescência política, teve uma atuação destacada na imprensa alternativa e sindical, tendo ajudado a fundar, nos anos 1980, a OBORÉ, agência pioneira na comunicação comunitária e sindical, onde produziu charges e cartilhas que traduziam as lutas dos trabalhadores com sensibilidade e humor. Parte de sua produção está no livro “Ilustração Sindical do Laerte”. Nesta obra estão contidos desenhos que, desde sua origem, estão em domínio público “[...] com a finalidade de ajudar a organização, a luta e a defesa dos trabalhadores”, de acordo com a própria ilustradora na apresentação do livro.

Colaborou ainda com publicações icônicas como as revistas Balão e Chiclete com Banana, e ficou amplamente conhecida por criar personagens profundamente urbanos, como os Piratas do Tietê, Overman e Deus. Em 2010, assumiu publicamente sua identidade como mulher trans, um marco que transformou sua vida e sua obra. Suas tiras na Folha de S.Paulo passaram a incorporar reflexões profundas sobre gênero, corpo e existencialismo. Com mais de cinco décadas de produção, Laerte é celebrada por sua maestria técnica, coragem política e capacidade de se reinventar.


O livro contém ilustrações que retratam a realidade dos trabalhadores da época

Homenagens In memoriam

  • Valdemar Rossi (1933-2016) - metalúrgico e militante na Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo.
  • Célia Rossi (1941-2022) - educadora popular e militante no Movimento de Saúde da Zona Leste.
  • Nair Goulart (1951–2016) - metalúrgica e primeira mulher a integrar a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.
  • Idibal Pivetta (1931–2023) - advogado e Fundador do Teatro União e Olho Vivo.
  • Paulo Frateschi (1950–2025) - professor, político e sindicalista paulista que atuou na Ação Libertadora Nacional.
  • Rubens Romano (1930–2022) - comerciário e presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, participou da fundação da Força Sindical.

Homenagens especiais

  • Paulo Cannabrava Filho (1936) - jornalista, pensador e militante anti-imperialista com forte atuação nas lutas sociais da América Latina
  • José Maria de Almeida (1957) - histórico líder metalúrgico, dirigente do PSTU e Cofundador do PT e da CUT.

Sobre o Dia da Luta Operária

O Dia da Luta Operária foi instituído pela lei municipal (nº 16.634/17) de autoria do ex-vereador e hoje deputado estadual Antonio Donato (PT). Ele explica que a motivação para tal proposição foi homenagear os trabalhadores, em nome do sapateiro José Martinez, assassinado pela repressão na Greve Geral de 1917.

Em 2017 celebrou-se o centenário da primeira greve geral do Brasil. A data representa um marco na história da classe operária brasileira. Em protesto contra os baixos salários, insuficientes para alimentar as famílias; contra as longas jornadas de trabalho impostas a homens, mulheres e crianças, que chegavam a lidar 14 horas diárias; ambientes insalubres e jornadas noturnas para mulheres e crianças, os operários têxteis iniciaram uma greve. A intervenção policial resultou na morte do sapateiro José Ineguez Martinez, de 21 anos.

O episódio fez recrudescer o movimento grevista. Na saída do enterro do sapateiro, a multidão dirigiu-se à Praça da Sé, em São Paulo, para um grande comício de protesto, onde exigiu-se a reabertura das ligas operárias, proibidas de funcionar no dia anterior; a libertação dos grevistas presos e a punição dos assassinos de Martinez. Uma simples greve converteu-se numa insurreição, pela qual os operários conseguiram alguns êxitos, mas principalmente fundaram as bases do movimento operário nacional. No âmbito externo, acontecia a 1º Guerra Mundial e a Revolução Russa. (Fonte: Cedem-Unesp / Imagem: Fundo Oboré Editorial).

Anualmente é promovido ato alusivo à data por iniciativa do deputado Donato e das centrais sindicais CUT, Força Sindical, UGT, CTB, CSB, NCST, CSP-Conlutas, Pública Central do Servidor, Intersindical Central da Classe Trabalhadora, e Intersindical Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora. Também participam da homenagem o Centro de Memória Sindical, Instituto Astrogildo Pereira, IIEP e Oboré.

No ato político que rememora essa luta, também será celebrado neste ano os 140 anos da greve de 1886. A mobilização, que aconteceu na cidade de Chicago nos Estados Unidos, é reconhecida como a origem do 1º de maio, o Dia Internacional do Trabalho. Essa greve conquistou a redução de trabalho para 8 horas por dia, carga horária que chegava a alcançar 17 horas diárias. A data foi reconhecida pelo Congresso socialista Segunda Internacional, que aconteceu em Paris, em 1889.

Neste ano, é o primeiro em que o Dia da Luta Operária celebra um fato histórico para as conquistas dos trabalhadores brasileiros: o fim da escala 6X1. Em maio de 2026 a Câmara aprovou o projeto que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas e substitui o modelo 6x1 por cinco dias de trabalho e dois de descanso remunerado. O projeto ainda aguarda decisão do Senado.

Sobre o Troféu

Concebido pelo artista plástico Enio Squeff especialmente para o Dia da Luta Operária, o troféu José Martinez presta homenagem ao sapateiro anarco-sindicalista que no dia 9 de julho de 1917 foi baleado por soldados da antiga Força Pública que reprimiam a greve geral que tomou conta de várias empresas na cidade de São Paulo. Seu falecimento dias depois causou enorme comoção.

O Troféu José Martinez teve sua primeira edição em 2019 e, desde então, presta homenagem todos os anos a personalidades que contribuíram para a luta operária no Brasil. Nos últimos três anos foram homenageados com o troféu Ana Dias, Sergio Gomes, Maria Maeno, Carlos Clemente, Almino Afonso e Heloísa Martins.


Busto de José Martinez celebra o Dia da Memória Operário em São Paulo

Serviço
DIA DA LUTA OPERÁRIA 2026 | Ato político e homenagens
Data: 9 de julho de 2025, Quinta-feira
Horário: A partir das 9 horas
Local: Avenida Angélica, 35, Santa Cecília, São Paulo (sede do SindPD).

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.