19/07/2026

Entre memória e resistência, Dia da Luta Operária rememora lutas históricas

Por Catarina Martines

No último dia 9 de julho, data que desde 2017 integra o calendário oficial da cidade de São Paulo como o Dia da Luta Operária, dirigentes sindicais, parlamentares, pesquisadores, jornalistas e militantes reuniram-se para celebrar a memória da classe trabalhadora brasileira e homenagear personagens que marcaram a história do movimento sindical e da luta por direitos no país.

A celebração, que acontece todo ano, é um evento promovido por centrais sindicais e entidades ligadas à preservação da memória do trabalho. O encontro reservado às manhãs deste feriado é um momento de reflexão acerca da história da luta operária no Brasil. Desde 2019, a cerimônia também passou a entregar o Troféu José Martinez, homenagem ao jovem operário espanhol morto durante a repressão à greve de 1917 e que se tornou símbolo da resistência dos trabalhadores. Os homenageados principais deste ano foram Aurélio Donato e Laerte Coutinho.

Aquela manhã

Na abertura do evento, a vice-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Têxtil da Força Sindical, Mônica Veloso, destacou que o objetivo da celebração é reverenciar aqueles que dedicaram suas vidas à construção da luta da classe trabalhadora e fortalecer a preservação dessa história. Ela também lembrou que a iniciativa reúne diferentes centrais sindicais em torno de uma memória comum do movimento operário.

O deputado estadual Antônio Donato (PT), autor da lei que instituiu o Dia da Luta Operária, recordou o processo de criação da data e afirmou que a proposta nasceu como um contraponto às comemorações tradicionais do 9 de Julho em São Paulo, buscando valorizar a perspectiva dos trabalhadores na construção da história da cidade. “Eu sempre imaginei que essa celebração não é de mandato. O mandato termina, mas o Dia da Luta Operária tem que ser da classe trabalhadora", apontou o deputado.

Ao longo da manhã, José Luiz Del Roio, homenageado na primeira edição do troféu e que desde então marca presença na cerimônia, resgatou em uma fala de abertura as mobilizações operárias iniciadas em Chicago, em 1886, a luta internacional pela jornada de oito horas de trabalho e a consolidação do 1º de Maio como data mundial de reivindicação dos trabalhadores. Del Roio relacionou esse percurso histórico às pautas atuais do movimento sindical, afirmando que a redução da jornada continua sendo uma reivindicação permanente da classe trabalhadora.

Esse diálogo entre passado e presente apareceu de forma recorrente durante toda a cerimônia. Diversos participantes defenderam a campanha pelo fim da escala 6x1, a redução da jornada semanal para 40 horas e a regulamentação do trabalho por aplicativos como desafios centrais da atualidade.

O deputado federal Carlos Zarattini (PT) afirmou que essas bandeiras representam uma nova etapa da luta dos trabalhadores brasileiros. Para ele, a conquista desses direitos dependerá da mobilização sindical e popular, e não apenas da atuação no Congresso Nacional. Zarattini também ressaltou que muitos dos homenageados tiveram papel decisivo na resistência à ditadura militar e na reconstrução da democracia brasileira.

A cerimônia foi marcada pela entrega de placas de homenagem, muitas delas póstumas, a lideranças sindicais, educadores populares, advogados, jornalistas e militantes históricos. Foram lembrados nomes como Nair, primeira mulher a integrar a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo; o comerciário Ruben Romano; o casal Valdemar Rossi e Célia Rossi, referências na organização popular e sindical; o professor e dirigente político Paulo Frateschi; o advogado e dramaturgo Idibal Pivetta, conhecido como César Vieira; e José Maria de Almeida, liderança histórica do movimento sindical brasileiro. O jornalista Paulo Cannabrava Filho, reconhecido por sua atuação em defesa da integração latino-americana e da soberania nacional, também foi homenageado.

Laerte Coutinho e Aurélio Perez, ambos homenageados principais da manhã, não puderam estar presentes por motivos de saúde. Os familiares de Aurélio receberam o troféu, enquanto Laerte gravou um vídeo de agradecimento à homenagem: “Também fico com vontade de esticar esse prêmio aos meus amigos e amigas da OBORÉ, que são as pessoas com quem eu desenvolvi todo esse trabalho que provavelmente é o que está sendo reconhecido agora”.

Durante a manhã, a Banda MPB Show apresentou um repertório com clássicos de Luiz Gonzaga, Martinho da Vila e Chico Buarque. No encerramento, os músicos e o público cantaram juntos o hino A Internacional, símbolo histórico da luta dos trabalhadores.

Todos dos discursos proferidos diante das homenagens individuais, enfatizaram que a luta operária acontece diante da organização coletiva. Em diferentes momentos, os participantes destacaram que preservar a memória do movimento sindical é também fortalecer as lutas do presente e impedir que conquistas históricas sejam esquecidas.

Ao final da cerimônia, o tom predominante foi o de continuidade. O encontro reafirmou que a defesa da democracia, dos direitos trabalhistas e da organização sindical permanece como um compromisso compartilhado pelas entidades presentes e pelos homenageados.

Confira a edição de 2025

Confira a edição de 2024

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.