O fim da escala 6x1 é mais que uma redução na jornada de trabalho: “é um processo revolucionário”, afirma historiador ítalo-brasileiro
Por Catarina Martines | Foto: Sérgio Decourt
O debate em torno do fim da escala 6x1 entra na reta final. Nas últimas semanas, o governo federal intensificou as discussões com o Congresso Nacional para avançar na proposta que prevê a redução da carga horária semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial, além da garantia de dois dias de descanso aos trabalhadores. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se com lideranças da Câmara dos Deputados e ministros para negociar os pontos centrais da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) e do projeto de lei que tratam do tema, enquanto parlamentares articulam acordos sobre o período de transição e as regras específicas para diferentes categorias profissionais.
O debate atual evidencia uma mudança importante na percepção sobre o trabalho no Brasil. Dentro desse cenário é fundamental resgatar a palestra realizada por José Luiz Del Roio poucos dias antes das comemorações do 1º de maio. Sua fala abordou justamente a compreensão de que a luta pela redução da jornada de trabalho não começou agora, mas atravessa séculos de mobilizações sociais, revoltas operárias e disputas políticas em diferentes partes do mundo.
Lutas históricas
A palestra intitulada “As muitas lutas do primeiro de maio”, que aconteceu no dia 16 de abril, no Sindicato dos Professores de São Paulo (SinproSp), Del Roio apresentou uma retrospectiva histórica das lutas dos trabalhadores. Apresentou ao público uma verdadeira aula sobre os 140 anos das comemorações do Dia dos Trabalhadores pelo mundo mostrando como as condições de trabalho são um tema contínuo. Dos gregos, até as discussões contemporâneas sobre a escala 6x1, o diálogo sobre os direitos do trabalhador é parte da história da humanidade.
José Luiz Del Roio é um historiador, político e ativista ítalo-brasileiro. Figura importante no cenário internacional da luta social e política. Ao reconstruir historicamente essas lutas, o palestrante destacou a origem da reivindicação pelas oito horas de trabalho. Desde a Antiguidade até a Revolução Industrial, trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas e condições precárias. Del Roio relembrou episódios históricos importantes, como a Revolta dos Ciompi, em Florença, que ocorreu em 1378 e é considerada uma das primeiras grandes revoltas operárias em defesa de melhores condições de vida e trabalho.
A palestra também abordou as condições de exploração durante a Revolução Industrial, especialmente nas fábricas inglesas do século XIX. Trabalhadores adultos e crianças eram submetidos a jornadas extremamente longas em ambientes insalubres e perigosos. O trabalho infantil nas minas e fábricas foi apresentado como um exemplo brutal da exploração promovida pelo capitalismo industrial naquele período.
Nesse contexto de exploração surgiram os movimentos operários internacionais e as primeiras organizações políticas voltadas à defesa da classe trabalhadora. Del Roio explicou que a luta pela redução da jornada foi uma das bases para o surgimento das correntes socialistas e comunistas modernas, o que fortaleceu mobilizações em diferentes países.
O ativista destacou que a redução da jornada de trabalho se consolidou como uma das principais reivindicações dos movimentos operários a partir da criação da Organização Internacional dos Trabalhadores (OIT), fundada em 1866, em Genebra. Segundo ele, a primeira grande resolução aprovada pela organização já defendia que “a redução das horas de trabalho” era “o primeiro passo para a emancipação do trabalhador”, além de estabelecer que “o trabalho de oito horas deve ser considerado o suficiente”.
Ao longo da fala, Del Roio apresentou uma visão do trabalho ligada à felicidade e à qualidade de vida. “O trabalho é para a felicidade, não para o sofrimento. Então, ele tem que ser o mais doce, o mais suave, o menor possível, mas que possa suportar a necessidade da sociedade”, defendeu o historiador.
Origens do Primeiro de Maio
A palestra reconstruiu o surgimento do Primeiro de Maio como data internacional de mobilização trabalhista. Del Roio explicou que a escolha da data está diretamente ligada às manifestações operárias de Chicago, em 1886, quando trabalhadores norte-americanos organizaram protestos pela redução da jornada de trabalho. A repressão terminou com a prisão e execução de lideranças operárias, transformadas posteriormente nos chamados “Mártires de Chicago”.
Tal episódio foi, exatamente 100 anos mais tarde, o combustível para o surgimento do chamado “novo sindicalismo” brasileiro. Nesse período que José Del Roio publicou o livro "1º de Maio: Sua Origem, Sua História, Suas Lutas", lançado em 1986 pela OBORÉ Editorial. Nesta obra, ele aborda as raízes pela luta em defesa das 8 horas de trabalho ao resgatar o sacrifício dos Mártires de Chicago.
A partir dessas manifestações, organizações operárias europeias decidiram criar uma manifestação internacional unificada. Assim, o Primeiro de Maio passou a representar um dia de greve, resistência e mobilização popular em defesa dos direitos trabalhistas. Mesmo com um pé importante na história dos Estados Unidos, o país é um dos únicos no mundo que não adota este feriado universal.
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Foto: Sérgio Decourt
A data no Brasil
Outro aspecto abordado foi a expansão das mobilizações trabalhistas para diferentes países, inclusive o Brasil. Del Roio destacou que o movimento operário brasileiro surgiu principalmente através da influência de imigrantes europeus, especialmente anarquistas, que trouxeram experiências de organização sindical e luta trabalhista. As primeiras celebrações do Primeiro de Maio no país aconteceram ainda no final do século XIX, em meio à forte repressão policial.
Nesse contexto, o palestrante destacou a primeira comemoração pública do Primeiro de Maio em Santos, organizada em 1895 por Silvério Martins Fontes. Segundo ele, Santos possui “essa glória” por ter sediado uma das primeiras manifestações públicas ligadas à luta operária brasileira.
Del Roio dedicou atenção especial à greve geral de 1917, considerada por ele como a primeira vitória da luta do trabalhador no Brasil. Iniciada nas fábricas têxteis do Brás, em São Paulo, a paralisação teve forte protagonismo feminino. Mulheres operárias lideraram reivindicações por redução da jornada, melhores salários e condições dignas de vida. Segundo o ativista, tratava-se de “uma greve realmente avançadíssima” e “uma greve feminina numa situação infernalmente inferior”.
A mobilização também trouxe debates sobre o trabalho infantil e as dificuldades cotidianas enfrentadas pelas trabalhadoras. Entre as reivindicações, estavam melhorias salariais, redução da jornada e até a criação de feiras livres em horários mais acessíveis, já que muitas mulheres não tinham tempo para comprar alimentos após o expediente.
Apesar da repressão policial e das mortes ocorridas durante o movimento, a greve conquistou avanços importantes nas condições de trabalho. Del Roio lembrou que, ao final das mobilizações, trabalhadores cantaram publicamente “A Internacional” pela primeira vez no Brasil, simbolizando a força da organização operária.
Um processo revolucionário
Para José Luiz Del Roio, a discussão atual sobre o fim da escala 6x1 representa muito mais do que uma simples alteração na jornada de trabalho. Como afirmou durante a palestra, “não é coisa pouca passar de 6x1 a 5x2. Transforma a sociedade. Não diria uma revolução, mas é um processo revolucionário”.
A reta final da votação dessa PEC é uma etapa que tem como eco todos esses anos de história. Acabar com a escala 6x1 é olhar diretamente para o bem-estar e o bem-viver da população e entender que cuidar da qualidade de vida dos trabalhadores deve ser, sim, uma prioridade.