14ª Roda de Conversa do Prêmio Vladimir Herzog: jornalistas contam bastidores das produções premiadas
Discussão abordou temas como violência policial, racismo ambiental e democracia.

Por Catarina Martines e Livia Bortoletto | Jornalismo Júnior.
Na tarde de segunda-feira (27), aconteceu a 14ª roda de conversa com os ganhadores da 47ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Esse evento, que antecede a entrega da premiação, tem como objetivo mostrar os bastidores das produções jornalísticas premiadas.
A discussão foi mediada por Aldo Quiroga, apresentador da TV Cultura e professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Angelina Nunes, integrante do conselho da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Além dos mediadores, Sergio Gomes, presidente da OBORÉ, uma das instituições realizadoras da premiação, também organizou a roda.

Os jornalistas comentaram sobre as dificuldades enfrentadas por eles na apuração das produções premiadas. Foto: Sofia Colasanto/Jornalismo Júnior.
A violência como tema central
A conversa com os premiados teve início com a fala de Renan Porto, um dos produtores de A Política da Bala, do Metrópoles, vencedor na categoria Produção Jornalística em Multimídia. O projeto investigou a violência policial no estado de São Paulo e contou com nove meses de uma complexa apuração. Renan conta que ele e seu colega Arthur Rodrigues reuniram diversos boletins de ocorrência, consultaram muitas fontes policiais e leram cerca de 90 mil páginas de processos judiciais relacionados a mortes causadas por agentes policiais.
Além da informação textual, Aldo enfatiza importância da veiculação da reportagem em vídeo, pois as imagens das câmeras corporais dos policiais fornecem um lastro de veracidade às informações apresentadas na produção.
Como explicitado por Angelina, a violência policial possui outro lado: a dor dos familiares das vítimas. É o que mostra a reportagem Mães de Luta, da TV Brasil, que ganhou Menção Honrosa na categoria vídeo. Ana Passos, uma das jornalistas que participou da elaboração da matéria, comenta que o objetivo central era dar voz às mulheres que haviam perdido filhos, maridos ou netos em ações policiais.
Assim como Renan, ela comenta que a equipe fez uma longa apuração para a reportagem, que contou com a visualização da reconstrução em 3D da cena de morte e a análise das perícias – que, segundo Ana, contêm diversas falhas intencionais. Quanto a esse último fato, Aldo apontou a semelhança dos dias atuais com o que aconteceu 50 anos atrás, no assassinato de Vladimir Herzog, no qual a perícia também alegou falsamente que o jornalista haveria se enforcado.
Também no âmbito da violência policial, Márcia Foletto, do Jornal O Globo, foi premiada na categoria Fotografia pela imagem Antes Que Ela Veja. A fotojornalista explicou na roda que, quando fez a fotografia, estava em meio a uma operação policial na comunidade Ladeira dos Tabajaras, e não percebeu o grande enfoque que havia capturado de imediato. Só posteriormente percebeu o flagrante que havia registrado: uma adolescente colocando as mãos sobre os olhos da irmã para protegê-la da trágica cena que viam ao passarem policiais carregando um corpo.
Márcia também comentou que, apesar das críticas relacionadas ao fato de fotografar momentos delicados como esse, acredita que a fotografia pode dar voz às vítimas de violência policial.
A discussão seguiu e foi a vez de Daniel Camargo, da Repórter Brasil, comentar como foi a produção de Ogronegócio: milícia e golpismo na Amazônia, que recebeu Menção Honrosa na categoria Produção Jornalística em Multimídia. O jornalista explicou que, para a elaboração do projeto, fez uma viagem de campo ao norte do Mato Grosso e ao Pará, na fronteira agrícola da Amazônia.
Devido aos riscos dessa apuração, uma série de protocolos foi seguida: “é uma produção muito antecipada, prevendo os riscos, imaginando possibilidades de sair do local, anotando contatos de segurança e reservando dinheiro para caso aconteça alguma coisa e a gente precisar sair de emergência”, explica Daniel. Ele também apontou que a série de reportagens teve um impacto enorme na região. Uma delas, por exemplo, foi a prisão de um grande grileiro na região de Altamira (PA).
Outra produção premiada foi o podcast Dois Mundos, da Folha de S.Paulo, na categoria Produção Jornalística em Áudio. Como explicou Vinícius Sassine, – um dos repórteres produtores do podcast – o projeto, que investiga a morte de um indígena no Amazonas, veio em grande parte de seu descontentamento em relação ao negligenciamento da imprensa quanto aos assuntos relacionados à Amazônia e aos povos indígenas.
Ele também comentou que, dois meses após a publicação do podcast, a Defensoria Pública pediu o desarquivamento do caso e o Ministério Público deu 90 dias para a polícia local refazer a investigação sobre a morte do indígena – que, anteriormente, como é comprovado no podcast, havia sido feita de modo descompromissado e tendencioso.
“Foi uma grande vitória do ponto de vista jornalístico, porque nós sabemos a quantidade de reportagens que caem no vazio”, disse Vinícius Sassine.
As violências simbólicas
Na categoria Arte, o vencedor foi o conjunto de ilustrações Racismo Ambiental: A outra emergência. Diogo Braga, autor dos desenhos, explica que decidiu abordar o tema a partir de ilustrações por ser uma forma de promover maior consciência visual em relação ao assunto. Ele também explicou que deu protagonismo às mulheres negras, pois elas são geralmente as líderes das famílias atingidas pelos efeitos da crise climática.
Em seguida, Beatriz Drague Ramos, do Brasil de Fato, comentou como foi a produção de Território em Fluxo, vencedor da categoria Produção Jornalística em Vídeo. “O nosso objetivo era entender como a Cracolândia estava funcionando depois da extinção da Política de Redução de Danos em 2019”, explica ela. O foco principal da matéria é o trabalho dos coletivos no local, que atuam hoje no lugar dessa antiga política.
Beatriz apontou que a equipe permaneceu dois meses apenas conhecendo o local e as pessoas nele presentes, sem gravar nada. Também destacou que a situação humana degradante em que os dependentes químicos se encontram causou um grande abalo emocional em toda a equipe de reportagem.
Quando uma pauta amadurece?
As categorias do prêmio abrangeram reportagens de equipes, tempo e financiamentos variados. Angélica Santa Cruz recebeu menção honrosa na categoria Produção Jornalística em Texto e sua fala evidenciou o que Aldo chamou de “processo de gestação” de uma pauta. Publicada na Revista piauí, Sorriso: uma biografia é uma reportagem que descreve Soninha, uma mulher negra que permaneceu por mais de 40 anos emsituação de escravidão doméstica em Florianópolis (SC).
Angélica falou sobre como um texto como este demora para ser finalizado pela dificuldade de apuração e que, mesmo com um longo tempo para sua produção, o processo ainda é intenso: “você fica dormindo com a matéria, isso não é necessariamente uma delícia”. Isabel Harari, representante da equipe vencedora dessa categoria, também relatou as complexidades do processo do jornalista de mergulhar em uma história.
Sua pauta Trabalho infantil na indústria tech, foi publicada pela Repórter Brasil, e teve como uma das principais fontes de pesquisa os próprios relatos das crianças presentes nas plataformas digitais. Isso, para Isabel, deixa a reportagem mais rica, porém, é um grande desafio na hora de apurar. Sobre a investigação a respeito da plataforma Roblox, Isabel conta que se chocou com as redes de trabalho que eram criadas dentro daquele ambiente. “Crianças e adolescentes acabavam virando uma mão de obra barata, para que essa plataforma pudesse consumir os produtos que elas estavam programando. O nosso objetivo era olhar para essa fronteira entre diversão e trabalho e, de alguma forma, apontar, levantar esse debate”, explicou a jornalista.
Além dessa categoria, outra que também contempla a escrita é a de Livro-reportagem. Ganhador deste ano, Sérgio Ramalho contou que a investigação que resultou no livro Decaídos (Matrix Editora, 2024) necessitou a criação de uma rotina de riscos, visto a complexidade do tema abordado, que mergulha nas conexões entre crime organizado, milícias e figuras do poder público. O repórter relatou na roda que chegou a receber uma ameaça de morte.

A conversa tem como um de seus fins ensinar jovens jornalistas sobre as estratégias de apuração e produção. Foto: Sofia Colasanto/Jornalismo Júnior.
O jornalismo como defensor da democracia
Nesta edição, em caráter especial pelo marco dos 50 anos da morte de Vladmir Herzog, patrono do prêmio, foi criada a categoria Defesa da Democracia. Ainda que o tema tenha sido mencionado em diversos discursos, as três pautas que encerraram o evento reforçaram essa proposta, colocando a defesa da democracia no centro das discussões.
Allan de Abreu, um dos ganhadores dessa categoria, foi premiado pela sua produção Os kids pretos: o papel da elite de combate do exército nas maquinações golpistas, publicado pela Revista piauí. Ele explicou que a ideia da pauta surgiu com o desejo de entender a tentativa de golpe do 8 de janeiro em detalhes. A partir daí surgiu uma profunda investigação sobre os kids pretos, militares preparados para atuar em missões de alto risco. Outro premiado desta categoria foi a reportagem 8/1 – a democracia resiste, feita pela equipe do GloboNews, representada na roda por Henrique Picarelli.
Durante sua fala, Picarelli comentou sobre as dificuldades em abordar uma pauta tão midiática e já explorada. Porém, com uma apuração detalhada, foi possível construir uma nova percepção do episódio. “Acho que o fato da democracia ter resistido a essa tentativa de golpe legítima a vontade de falar a respeito dela e de sua importância”, defendeu o jornalista.
Além dessas duas produções, o podcast Projeto de poder foi contemplado com menção honrosa na categoria Produção Jornalística em Áudio. Igor Mello representou a equipe do trabalho realizado pelo ICL notícias. Ao longo de sua fala ele descreveu como iniciou a investigação sobre o pastor Silas Malafaia, após uma manifestação organizada por ele.