Ato em memória de Manoel Fiel Filho será dia 19, em SP
Um ato em memória dos 50 anos do assassinato do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho será realizado nesta segunda-feira, dia 19 de janeiro, a partir das 18 horas, no Sindicato dos Aposentados da Força Sindical, na rua do Carmo, 171, próximo à Praça da Sé.
O evento reunirá sindicalistas, entidades e ativistas pró-democracia para homenagear o trabalhador metalúrgico assassinado há 50 anos pela ditadura, no dia 17 de janeiro de 1976. A data passou a celebrar o Dia do Delegado Sindical, função que Manoel Fiel Filho também exercia na empresa onde trabalhava, a Metal Arte.
Na ocasião, a Fundação Astrojildo Pereira (FAP), organizadora do evento, fará o lançamento do livro ‘Carrascos da Ditadura’, escrito pelo jornalista Jorge Oliveira, que também dirigiu o documentário ‘Perdão, Mister Fiel’, de 2008, que será exibido ao público presente.
As obras reconstróem a trajetória de Manoel Fiel Filho, apontam os responsáveis por sua prisão, tortura e morte e analisam o funcionamento da repressão política no Brasil e na América do Sul durante os regimes autoritários.
Durante o evento, será feita a entrega da Medalha Manoel Fiel Filho, concedida a militantes do movimento operário e sindical como reconhecimento à resistência democrática e à defesa dos direitos dos trabalhadores no período da ditadura.
O ato, que reafirma o compromisso com a memória, a verdade, a justiça e a democracia, conta com o apoio da OBORÉ, Centro de Memória Sindical e centrais sindicais.
Manoel Fiel Filho, o operário que desafiou o regime
Em janeiro de 1976, o Brasil vivia um dos momentos mais tensos da ditadura militar. Apenas três meses após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, um operário metalúrgico alagoano, radicado em São Paulo, tornaria-se o novo símbolo da brutalidade estatal e, paradoxalmente, o estopim para uma mudança nos rumos do regime: Manoel Fiel Filho.
Trabalhador da Metal Arte Industrial, na Mooca, Manoel foi levado de seu posto de trabalho por agentes do DOI-CODI no dia 16 de janeiro. O "crime" que motivou sua detenção foi a posse de exemplares do jornal Voz Operária, órgão oficial do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Menos de 24 horas depois, a família recebia a notícia de sua morte. A versão oficial, idêntica à de Herzog, alegava "suicídio com as próprias meias".
No entanto, as evidências de tortura no corpo de Manoel eram incontestáveis, revelando um padrão de violência sistemática nas dependências do II Exército. Diferente do caso Herzog, que gerou comoção nas elites intelectuais, a morte de um operário evidenciou que ninguém estava a salvo. O episódio foi o limite para o então presidente Ernesto Geisel. Em uma demonstração de força contra a "linha dura" militar, Geisel exonerou o general Ednardo D’Ávila Mello, comandante do II Exército, sinalizando o início do processo de abertura política "lenta, gradual e segura".
Hoje, 50 anos após o ocorrido, a memória de Manoel Fiel Filho permanece viva não apenas como uma vítima da repressão, mas como a voz de uma classe trabalhadora que resistiu silenciosamente. Seu nome batiza ruas e escolas, lembrando que a democracia brasileira foi forjada também pelo sangue de quem operava as prensas das fábricas.
Manoel Fiel Filho (1927-1976), símbolo da luta democrática e da resistência contra a repressão militar. Foto: Arquivo Público/Divulgação).