Diálogo entre a cidade e o audiovisual abre o curso Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo
Os modos documentais de Bill Nichols, as escolas “Cinema Veritè” e “Direct Cinema” e o convite a enxergar a cidade como personagem, foram os eixos centrais da aula do jornalista Aldo Quiroga.
Por Thaís Manhães.
A quinta turma do curso Cinema & Jornalismo: Luzes sobre São Paulo participou, no último sábado (6), da aula inaugural da edição, conduzida pelo jornalista Aldo Quiroga. Dos inscritos, 210 estudantes e recém formados participaram do encontro. Conectados na sala do Zoom, Aldo propôs como recorte o diálogo entre o audiovisual e a cidade.

“O que a gente precisa entender é que a cidade não é apenas um cenário, pode não ser apenas um cenário. Ela pode ir muito além disso. Ela pode ser uma personagem da nossa história”, afirmou o jornalista nos momentos iniciais.
Para abrir a conversa, Aldo contextualizou as múltiplas relações entre o audiovisual e o espaço urbano. A provocação que guiou toda a aula foi o convite a enxergar a cidade como um organismo vivo, com seu perfil arquitetônico, população diversa e inúmeras formas de expressão, elementos que, segundo ele, também se comunicam por meio das imagens.
Como referencial teórico, o jornalista tomou como base três diretores que têm como rúbrica o diálogo com a cidade, cada um a seu modo: o diretor chileno Patrício Guzmán, o cineasta russo Dziga Vertov e Chris Marker, cineasta francês.
A escolha se apoiou em três formas diferentes de retratar a cidade. Se o chileno Guzmán em “A cordilheira dos sonhos” (2019) retrata a cidade como testemunho da história escondida, o russo Vertov em “O homem com uma câmera” (1929) aborda a cidade como ritmo, rotina e movimento. E, por sua vez, Chris Marker registra a cidade como um baú de memórias, em “Sem Sol” (1983).
Fazendo um apanhado histórico, o jornalista apontou que a popularização do documentário, como um formato na interseção entre o jornalismo e o cinema, se deu na década de 60 do século passado. Com o avançar da tecnologia, os equipamentos de filmagem ficaram mais leves e mais fáceis de carregar, tirando as pessoas dos estúdios e as levando para registrar as ruas e a cidade.
Neste contexto, Aldo apresentou duas grandes escolas de referência, uma na América e outra na Europa. Nos Estados Unidos o “Direct Cinema”, propunha que o cineasta deveria ser a “mosca na parede”, um observador que não interfere na cena. Não tem entrevista, não tem locução, não tem narração, é apenas a câmera gravando. O documentário “As primárias” (1960), de Robert Drew, que acompanha as articulações da corrida presidencial de 60, entre Hubert Humphrey e John Kennedy, é um exemplo deste pensamento.
Em contrapartida, na França, para o “Cinema Verité”, o cineasta interfere ativamente na cena. Segundo esta escola, é impossível filmar sem interferir no que está sendo gravado.
“É preciso ir além desta realidade superficial que a câmera pode registrar. É preciso registrar a realidade mais profunda”, explicou Aldo fazendo referência à escola francesa.
Este movimento defende a interação com o real para que a câmera consiga registrar o que a aparência de realidade, proposta pela escola norte-americana esconde. Então, o cineasta vai para a rua, faz entrevistas, participa do que está sendo gravado. “Crônica de um verão” (1961), de Edgar Morin e Jean Rouch define bem este movimento.
Após este primeiro painel de contextualização, Aldo apresentou os seis modos documentais, uma classificação proposta por Bill Nichols, teórico norte-americano. Esses modos definem gêneros para contar histórias por meio do documentário, divididos em bases clássicas (modo poético, expositivo e observativo) e modernas (modo participativo, reflexivo e performático).
Ao final da exposição de Aldo, um breve intervalo e o retorno para o momento da coletiva de imprensa com os estudantes, esta é uma prática comum, que integra a metodologia do Projeto Repórter do Futuro, que há mais de trinta anos oferece cursos modulares. A simulação da entrevista coletiva é uma oportunidade para os estudantes criarem musculatura jornalística em um ambiente acolhedor e protegido.
Como consideração final, a equipe pedagógica sugeriu que os estudantes, espalhados pelas 27 unidades federativas do país, comecem a sondar possíveis colegas parceiros/as de produção, a última fase do módulo é a Operação Ponto Final, quando os estudantes produzirão uma peça audiovisual. As produções poderão ser veiculadas na grade da Rede Câmara SP, por meio do Programa Repórter do Futuro, espaço dedicado aos estudantes do Projeto.
A segunda aula está prevista para o próximo sábado (13), quando Aldo irá destrinchar, dentre outros pontos teóricos, o conceito de dispositivos documentais, pontos de gatilho por onde se pode começar a contar uma história. Até lá!
Veja outras indicações do convidado
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Trilogia “A Batalha do Chile”, de Patrício Guzmán:
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A Insurreição da Burguesia, Parte I (1975)
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O Golpe Militar, Parte II (1976/1977)
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Poder Popular, Parte III (1979)
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Trilogia do Patrício Guzmán:
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Nostalgia da luz (2010)
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O botão de pérola (2015)
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A cordilheira dos sonhos (2019)
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Cuba e o Cameraman (2017), de Jon Alpert
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Luta na Terra de Makunaima, de Aldo Quiroga (roteiro e edição) e Luiz Carlos Azenha (direção) - menção honrosa Prêmio Vladimir Herzog (2008) e finalista no Prêmio Esso de Telejornalismo
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Como o céu é do Condor (2020), direção e roteiro de Aldo Quiroga
Aldo Quiroga

Aldo Quiroga é editor-chefe e apresentador do Jornal da Tarde, na TV Cultura. Também é professor do Departamento de Jornalismo da PUC-SP e doutorando em Comunicação e Semiótica pela mesma instituição.
Quiroga é membro da coordenação do Projeto Repórter do Futuro há 12 anos e coordenador pedagógico do módulo de Conflitos Armados e outras Situações de Violência, em parceria com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).
Veja o cronograma desta edição:
6 e 13 de dezembro de 2025, 17, 24 e 31 de janeiro de 2026 e 7 de fevereiro de 2026, sempre aos sábados, das 10h às 13h: Conferências remotas com os convidados (via Zoom)
15 de dezembro de 2025 a 30 de abril de 2026: Produção das obras audiovisuais + Oficinas livres
Maio a outubro de 2026: Participação no Programa Repórter do Futuro na Rede Câmara (facultativo) e Click PRF - Mostra de videorreportagens do Repórter do Futuro, com lançamento do e-book no auditório da Escola da Cidade (Rua General Jardim, 65, Vila Buarque, São Paulo)
- O curso “Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo” é realizado pelo Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão de Políticas Públicas e Sociais (IPFD), em parceria com a OBORÉ e Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, fruto de emenda parlamentar do vereador Professor Eliseu Gabriel (PSB).
Sobre o módulo Cinema e Jornalismo:
As transformações cada vez mais rápidas e profundas pelas quais a cidade de São Paulo vem passando nas últimas décadas evidenciam que a tarefa de comunicar as suas realidades, dinâmicas de funcionamento e instrumentos de participação é crescentemente complexa.
Essa velocidade de transformação da cidade e da sociedade vem acompanhada de novas possibilidades de leitura e registro com o avanço tecnológico e a revolução digital. Porém, empreender o mergulho necessário para registrar e documentar as múltiplas realidades paulistanas requer boa preparação prévia, informação qualificada e conquista de repertórios éticos, estéticos e sensíveis, o que pode ser desenvolvido pelo acesso a recursos e narrativas artístico-culturais, em especial o Cinema e os múltiplas formatos audiovisuais que atualmente circulam nas mais diversas telas, mídias e plataformas.
Neste projeto, em sua quinta edição, a proposta é continuar jogando luz sobre as muitas questões que envolvem a vida cotidiana em São Paulo com a ajuda de obras audiovisuais e documentários produzidos e disponíveis na plataforma da SPCine para, em seguida, discutir novas pautas e incentivar novas produções e narrativas jornalísticas e audiovisuais.
SERVIÇO
“Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo” - 5ª edição | 2025
- Encontros em formato remoto com atividades de campo presenciais
- Vagas: 150
- Datas dos encontros remotos: 6 e 13 de dezembro de 2025, 17, 24 e 31 de janeiro de 2026, 7 de fevereiro, sempre aos sábados, das 10h às 13h, via Zoom
Mais informações:
Telefone: (11) 2847.4567 / Whatsapp: (11) 99320.0068