14/03/2025

No Dia Internacional da Mulher, historiadora resgata memória e ativismo de Virgínia Artigas

Por Fábia Medeiros | Canal da Praça | OBORÉ

Em plena Quarta-Feira de Cinzas, a historiadora Rosa Camargo Artigas recebeu a equipe do Canal da Praça para uma conversa sobre sua mãe, Virgínia Artigas, e seu papel na luta feminista, na militância e nas artes. Integrante do Grupo Santa Helena, Virgínia foi uma artista de vanguarda no século XX com seus desenhos, pinturas, esculturas e cartazes. É de sua autoria o cartaz que comemorou, em 1975, o Dia Internacional da Mulher oficialmente instituído pela ONU no dia 8 de março daquele ano.

O pai de Rosa, João Batista Vilanova Artigas, arquiteto e urbanista, um dos criadores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), é um dos pais da arquitetura moderna paulista e autor de construções icônicas como estádio do Morumbi (1952), prédio da FAU-USP (1968); Edifício Louveira, em Higienópolis (1946); Residências Vilanova Artigas I (1942) e II (1949), no Campo Belo, em São Paulo.

Os Artigas são figuras importantes no cenário da cultura paulistana e também brasileira. "Meus pais sempre estiveram envolvidos com arte, arquitetura e sindicatos. Eles participaram da fundação do Museu de Arte Moderna, do Museu de Arte Contemporânea e de sindicatos de artistas; naquele período, houve uma institucionalização da cultura, era um mundo completamente excepcional", explica.

Com autonomia intelectual e trajetória própria, não à toa a historiadora Rosa tem especial predileção pelo mundo da arquitetura. Ela lecionou a disciplina História, Teoria e Crítica de Arquitetura e Urbanismo na Escola da Cidade, foi organizadora de diversos livros voltados à arquitetura, inclusive a própria obra do pai, além de publicações internacionais em revistas, catálogos e artigos.

O Dia da Mulher

Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu oficialmente o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. Foi Virgínia Artigas quem desenhou o emblemático cartaz em alusão a esta celebração. Como conta Rosa Artigas, o ano deste cartaz se confunde com a ida de Virgínia a Paris para visitar diversos amigos que viviam no exílio por conta da ditadura. A filha acredita que o desenho tenha sido algo articulado por um grupo de militantes ligados ao Partido Comunista que, à época, lutava pela Anistia e que envolvia personalidades como Therezinha Zerbini, advogada brasileira e ativista dos direitos humanos. O cartaz ficou famoso por celebrar uma data importante e se tornou um marco na luta pelos direitos da mulher no cenário nacional. “ A Therezinha foi a primeira mulher a ligar o Dia da Mulher à Anistia. A resistência das mulheres vem desde os anos 1940”, explica.

A vanguardista

Por conta das dificuldades financeiras enfrentadas desde a infância, Virgínia não teve muitas oportunidades de receber uma educação formal; porém, demonstrava uma habilidade especial para o desenho. Segundo relata Rosa Artigas no livro Virginia Artigas: Histórias de Arte e Política, a mãe alcançou o terceiro lugar em um concurso de arte infantil promovido pela Academia de Belas Artes de São Paulo. "Minha mãe se alfabetizou tardiamente, por volta dos 9 ou 10 anos. Naquela época, não se exigia formação acadêmica das mulheres, então ela conseguiu algumas bolsas de estudo. E tinha algo muito especial: ela era artista desde pequenininha", comenta.

Rosa Artigas lembra que ao longo da vida, Virgínia sempre foi uma mulher de pensamento à frente de seu tempo. Filiou-se ao Partido Comunista antes do marido, contribuiu para diversos jornais e revistas, especialmente para o jornal dos trabalhadores rurais Terra Livre, transitava com desenvoltura no meio da classe operária e era uma defensora da causa feminina. “Virgínia escrevia para dois jornais, um deles pode ser comparado, nos dias atuais, ao que conhecemos como o do Movimento Sem-Terra”, relata.

As causas femininas sempre estiveram presentes na obra de Virgínia Artigas. Mesmo com essa ‘pegada’ mais avançada e influenciada pelo movimento de independência da mulher, os desenhos giram em torno de questões domésticas e necessidades da família. A arte dela, em geral, orbitava no universo da simplicidade das tarefas ligadas à mulher, explica Rosa, que percebe que a mãe já era feminista, sobretudo por suas posições políticas e por sua militância. “Desde a década de 40, ela se envolvia com pautas feministas, mesmo tendo como mote principal as necessidades das famílias pobres. Participava de vários movimentos, como o da Federação de Mulheres, o Grupo de Mulheres Operárias e Intelectuais, mas com o olhar feminino. À época, desenhou diversos cartazes: o da panela vazia, o da mulher lavando o pé e o da mulher descascando batatas”, conta.

A filha Rosa rememora com carinho que foi a arte a responsável por unir seus pais. “Na década de 1930, mais ou menos, eles começaram a morar juntos e se casaram em 1942. Então, na história do meu pai e da minha mãe, a ligação deles é a relação artística que tinham com a vida.”

Em tempo:

Assista aqui o vídeo com a entrevista de Rosa Camargo Artigas realizada pelos jornalistas Renan Honorato, Danilo Zelic e Fábia Medeiros, do Canal da Praça, em 7 de março de 2025. A produção é uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher, 8 de Março. A xilogravura assinada por Virgínia e transformada em cartaz para o Ano Internacional da Mulher de 1975 será reproduzida no Muro das Evocações, na Praça Memorial Vladimir Herzog, juntamente com outras obras artísticas que remetem aos valores que animaram Vlado e seus contemporâneos: liberdade, igualdade, fraternidade, justiça, paz, direitos da mulher, convivência religiosa, amizade e anti-racismo. Os artistas que produziram obras alusivas a esses valores e que estarão, futuramente, ao lado de Virgínia, são: Enio Squeff, Jorge Araúdo, Mono Gonzalez, Elifas Andreato, Gilberto Maringoni, Kleber Pagu, Jaime Leão, Laerte, Ziraldo, Henfil, Fortuna, Paulo Caruso, Zélio, Ciça, Sizenando, Conceição Cahu, Redi, Alfredo Nastari, Caulus e Jaguar.

Acompanhe as atividades da Praça Memorial Vladimir Herzog

Esquina da Rua Santo Antonio com Praça da Bandeira, atrás da Câmara Municipal

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